sábado, 13 de maio de 2017

Iyámi-Ajé

 Minha Mãe Feiticeira 


“Fomos educadas para respeitar mais ao medo do que a nossa necessidade de linguagem e definição, mas se esperamos em silêncio que chegue a coragem, o peso do silêncio vai nos afogar.”   
Audre Lorde.




Por: Rosangela Nascimento

Peço a sua benção mãe natureza, que permite que tudo se transforme e ou modifique-se. Para continuar minha jornada, embora em alguns momentos eu titubeie, mas logo recupero o fôlego e sigo adiante deixando minha imaginação fluir e o coração com a porta aberta para captar os bons ventos.

Foi na Grécia antiga no começo da primavera que se iniciou o ato de celebrar e realizar oferta à mitológica Deusa Rhea, a mãe dos Deuses. Tornando este um momento especial para louvar e agradar a mãe, a grandiosa Deusa.

E como somos representações dos Deuses, ao longo da história os hábitos e costumes foram repassados e aprendidos.  Chegando à contemporaneidade o “Dia das Mães”. 
Na religião de matriz africana a Deusa Oxum, assume caracteres parecidos a Deusa Rhea, ambas são símbolos da fertilidade.

Com a benção da natureza, as águas doces dos rios são comandadas pela Deusa do amor, que tem poder de alta patente para uma mulher por controlar a fecundidade, ela é uma Iyámi-Ajé (Minha mãe feiticeira).

Partindo desta premissa, seguindo um pouco da mitologia, e adentrando o mundo real, que a vida é árdua e dura para algumas mulheres. De seus ventres, da grande cabaça, surge uma força desconhecida e gigantesca que vem como um raio de sol batendo no horizonte. Desaparece o véu do silêncio. Sendo este um fenômeno que poucos irão perceber. Pois há, outro fenômeno raro chamado sensibilidade.

A falta deste fenômeno lava de sangue as ruas e alma de muitas mães que choram por que perderam seus filhos jovens negros. E tudo se resumi em uma única palavra, que poderia mudar a realidade. Aliás, não podemos medir a dor alheia, é imensurável!

Dito isto, sabendo desta afirmação podemos acolher em nossos braços e corações estas mães, mulheres que perderam seus filhos que abruptamente foram retirados do seu convívio natural. Um berro uníssono é o que as mães destes jovens negros estão emitindo.
Porquanto, já que existi o “Dia das Mães”, e o ato de presentear as Deusas, vamos ofertar o que há de melhor dentro de nós. Amor, que pode ser manifestado de diversos gestos e atos simbólicos. Humanizar cada expressão direcionada para estas mulheres é fundamental. São os encadeamentos de respeito que fazem a diferença.

E a minha mãe feiticeira, que fez brotar de seu útero quatro titãs, quatro erês. Fazendo uso da magia para com salário mínimo sustentar os filhos e arcar com a despesa da casa. Ora foi silenciada, emudecida por uma sociedade excludente que se revela a cada dia que corre as mudanças do mundo, em cada raio de sol que bate no horizonte.
Sobreviver na nossa sociedade, é aprender a fazer muita magia, é utilizar de forças que habitam o universo. É fazendo um feitiço para empoderar os filhos/as para combater o preconceito e o racismo. E uma porção de encantamento para acolher no colo e enxugar as lágrimas.      

Sou privilegiada de ter comigo minha mãe feiticeira. Que se revela de diversas formas, que usa da criatividade para sobressair. Para fazer valer seu lugar no firmamento, sem silêncios ou boicotes. Abrindo os caminhos para um futuro melhor, com mais igualdade e oportunidades. Foram muitas lágrimas para formar um rio e fazer com que o axé chegue até nós, nossas ancestrais fizeram muitas mandingas.

Em virtude do foi mencionado, na perspectiva de romper os silêncios de respeito à vida ofertando e humanizando cada ato direcionado para as Deusas, as Mães, Iyámi-Ájé. Que seja fértil os nossos corações para brotar algo bom, maravilhoso que ilumine os caminhos e inunde corações com luz negra por onde passar de forma flamejante.  

Com carinho para Iyámi-Ájé.
Maria José do Nascimento

________
[1] Mãe, Companheira, Mulher Negra, Pernambucana, Nordestina. Blogueira, Graduada em Letras - FACHO (Faculdade de Ciências Humanas de Olinda), Arte Educadora Sócio - Ambiental. Educadora com formação em Direitos Humanos. Como escritora convidada participou - Cadernos Negros volume nº 38 dedicado aos contos (Quilombhoje).