quarta-feira, 1 de março de 2017

Carnaval, e as vidas seguem!




Foto: Rennan Peixe 

Por: Rosangela Nascimento

Emoções, tristezas, infelicidades ou insatisfações compõem o nosso mundo, isto visto, de forma singular, e, individual. Sou mera espectadora deste Carnaval, e digo, é lindo de ver mulheres sendo homenageadas, no país que elegeu uma mulher como sua Presidente e depois assistiu o impeachment tramado por um golpe.

Não fui às ruas brincar o Carnaval, mas o pensamento, o meu corpo e espírito, estes foram. E com certeza gritaram Fora Temer. E, tenho a afirmação de minha força ancestral, que não foi em vão que inúmeras mulheres deste país, e, do meu estado de origem, dedicaram os seus cortejos, o seu momento de irreverência, culminância, protesto e reivindicação. 
São crescentes os números de violência contra nós mulheres, e nós, mulheres negras, isto não é pauta. Mas motivo de colocar o nosso bloco na rua todos os dias e gritar, temos feito isto durante tantos anos, são muitos carnavais. Mas, estamos aqui!  Reavivando a memória, reconstruindo essa linha de tempo que nos invisibiliza.  

Clamamos por nós, por outras, ausentes, presentes e as que de forma brutal foram excluídas. Carnaval é festa da carne, isto dito, para os cristãos. Mas, além disto, é reivindicação, apropriação, justiça e garantia de direitos.  E quem tem seus direitos violados, roubados e negados veste neste carnaval a fantasia da democracia. Ou seja, a que foi roubada, negada, e, camuflada. 

Lindo de ver, sentir e imaginar a força das mulheres homenageadas neste carnaval gera uma energia tão gigante, da Mãe Meninha homenageada pela Escola de Samba Vai Vai, o Ylú Obá de Mim, aos Afoxés da minha terra natal, Omô Nilê Ogunjá, Oyá Tocolê Owó, Baque Mulher e a Banda Afro Ará Ylê. Tenho certeza que muitos outros surgiram, pois o grito ecoa entre nossos ouvidos, corações e nobres sentimentos. Estamos tão insatisfeitas, das escolhas direcionadas para nós, e, nós mulheres negras estamos colocando nosso bloco nas ruas, nossas dores, nossa força.

Não dar mais para vestir-se de ilusões, sabemos de nossas lutas e trajetórias. É feminismo, é! Mas, sabemos que ao longo da história não fomos contempladas, e sim, manipuladas. Infelizmente, consciência é o que move um Movimento popular neste mundo, e, faz desta sua ação. A gente nunca pensa na história, mas ela é nossa companheira, nos persegue e é nossa aliada. As mulheres brancas para ocupar espaços no mercado de trabalho contaram com a mão de obra escrava, isto, quer dizer uma mulher para cuidar de seus filhos/as casa, não as culpo por isto, e sim o sistema. Mas admitir que nós mulheres negras também precisássemos de nossas lideranças e referências, é colocarmos todas as nossas energias e botarmos os blocos na rua. Trazer outras mulheres, iguais, desiguais mais o que nos une é a violência, os nossos direitos negados.  É triste pensar desta forma, mas não temos opção, vivemos na linha de confronto onde nós seguimos, nos defendendo, acolhemos e reivindicamos!

Carnaval é culminância, é um recomeço reelaboração em todos os sentidos, inclusive política. Gritamos todos os dias nossas angustias, insatisfações. Mas, há em nós uma força incansável que não nos deixa desistir e insistirmos em dizer estamos aqui. A vida segue, o rumo depende de nós!