sexta-feira, 3 de maio de 2013

E SALVE SOLANO TRINDADE


 MILITANTE E FONTE DE INSPIRAÇÃO PARA LITERATURA NEGRA DA ATUALIDADE





Nasceu em Recife no ano de 1908 no bairro de São José, considerado o poeta do povo - o poeta negro de todos os tempos!



CONVERSA

- Eita negro!

quem foi que disse

que a gente não é gente?

quem foi esse demente,

se tem olhos não vê…

- Que foi que fizeste mano

pra tanto falar assim?

- Plantei os canaviais do nordeste

- E tu, mano, o que fizeste?

Eu plantei algodão

nos campos do sul

pros homens de sangue azul

que pagavam o meu trabalho

com surra de cipó-pau.

- Basta, mano,

pra eu não chorar
E tu, Ana,

Conta-me tua vida,

Na senzala, no terreiro

- Eu…

cantei embolada,

pra sinhá dormir,

fiz tranças nela,

pra sinhá sair,

tomando cachaça,

servi de amor,

dancei no terreiro,

pra sinhozinho,

apanhei surras grandes,

sem mal eu fazer.

Eita! quanta coisa

tu tens pra contar…

não conta mais nada,

pra eu não chorar -

E tu, Manoel,

que andaste a fazer

- Eu sempre fui malandro

Ó tia Maria,

gostava de terreiro,

como ninguém,

subi para o morro,

fiz sambas bonitos,

conquistei as mulatas

bonitas de lá…

Eita negro!

- Quem foi que disse

que a gente não é gente?

Quem foi esse demente,

se tem olhos não vê.




POEMA AUTOBIOGRÁFICO


“Quando eu nasci,

Meu pai batia sola,

Minha mana pisava milho no pilão,

Para o angu das manhãs…

Portanto eu venho da massa,

Eu sou um trabalhador…

Ouvi o ritmo das máquinas,

E o borbulhar das caldeiras…

Obedeci ao chamado das sirenes…

Morei num mucambo do “”Bode”",

E hoje moro num barraco na Saúde…

Não mudei nada…”



TEM GENTE FOME

Trem sujo da Leopoldina

correndo correndo

parece dizer

tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias

de novo a dizer

de novo a correr

tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

Vigário Geral

Lucas

Cordovil

Brás de Pina

Penha Circular

Estação da Penha

Olaria

Ramos

Bom Sucesso

Carlos Chagas

Triagem, Mauá

trem sujo da Leopoldina

correndo correndo

parece dizer

tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

Tantas caras tristes

querendo chegar

em algum destino

em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina

correndo correndo

parece dizer

tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

Só nas estações

quando vai parando

lentamente começa a dizer

se tem gente com fome

dá de comer

se tem gente com fome

dá de comer

se tem gente com fome

dá de comer

Mas o freio de ar

todo autoritário

manda o trem calar

Psiuuuuuuuuuuu



Opiniões sobre a obra de Solano Trindade:



Carlos Drumond de Andrade, em carta a Solano, 02/12/1944: "A leitura dos seus versos deu-me confiança no poeta que é capaz de escrever Poema do Homem e O Canto dos Palmares. Há nesses versos uma força natural e uma voz individual, rica e ardente, que se confunde com a voz coletiva."

Roger Bastides, sociólogo e escritor francês, viveu no Brasil entre 1938-1954, autor de "A Poesia Afro-Brasileira", tradutor de "Casa Grande & Senzala" para o francês: "O senhor faz dos seus versos uma arma, um toque de clarim, que desperta as energias, levanta os corações, combate por um mundo melhor."

Darcy Ribeiro, no livro "Aos Trancos e Barrancos – Como o Brasil deu no que deu", 1985: "O Teatro Experimental do Negro funcionou como um núcleo ativo de conscientização dos negros, para assumirem orgulhosamente sua identidade e lutar contra a discriminação".

Abdias do Nascimento, escritor e político negro: "Entre os raros poetas negros que conheço neste Brasil mestiço, Solano Trindade é o que melhor me satisfaz. Ele é negro, sente como negro, e como tal cantou as dores, as alegrias e as aspirações literárias do afro-brasileiro."

Otto Maria Carpeaux, escritor e crítico literário: "Uma estante num armário meu está reservada para os poetas brasileiros. Não são muitos que guardo, e os que não pretendo reler estão atrás. Às vezes, conforme as mudanças violentas do meu gosto, mudam de lugar, saindo para a 1a. Há alguns que já mudaram várias vezes de lugar. O seu volume, que considero uma pequena preciosidade, entrou hoje na 1a fila; espero que continuará lá até, um dia, um leiloeiro apregoar as coisas que deixei ao descer para a cova e gritar: ‘Volume de Solano Trindade, raro, valorizado por dedicatória do poeta ao defunto!’"

Nestor de Holanda, escritor, compositor e crítico, autor de "Itinerário da Poesia carioca", sobre o livro Poemas de uma Vida Simples: "A cor preta no Brasil está tendo agora, com o surgimento de Solano, o seu primeiro poeta nato, o seu primeiro cantor negro. Solano Trindade é o maior preto que a poesia negra possui. E nenhum negro interpretou tão bem e com tanto sentimento, até hoje, entre nós, o verdadeiro sentido da poesia preta."

Romão da Silva, escritor e jornalista: "Quem quiser pense ao contrário, mas na minha opinião, Solano Trindade, este grande poeta negro que Pernambuco deu ao Brasil, é o nosso Langston Hughes."

José Louzeiro, escritor: "Convivi de perto com Solano Trindade. Era um intelectual de intensa participação e tinha consciência de que poucos países desenvolvem uma política racista tão bem camuflada quanto o nosso."

Lauro Armando, poeta e escritor: "Grande poeta, grande lutador, grande negro, grande exemplo, enfrentando as barreiras da discriminação racial, com a mesma coragem com que Castro Alves, Luis Gama, Patrocínio e Joaquim Nabuco haviam denunciado as da escravatura."

Sérgio Milliet, poeta, ensaísta e um dos mais importantes críticos literários brasileiros, 1961: "Organizando bailados, editando revistas, promovendo espetáculos e conferências, incansável em sua atividade, poucos fizeram tanto quanto ele pelo ideal da valorização do negro. O livro Cantares ao meu Povo é a tomada de consciência disso a que Sartre chamou de negritude."

Álvaro Alves de Faria: "Solano, na verdade, não tinha muitas preocupações com as escolas literárias da poesia brasileira. Para ele, a poesia era realmente inspiração, aquele estado de espírito aberto ou à beleza ou à angústia. E esse estado Solano usou para falar -pelo menos no início da sua obra poética- de sua cor, na luta do negro quase sempre marginalizado."

Henrique L. Alves: "O criador do Teatro Popular Brasileiro, poeta, folclorista, cineasta figura humana pertencente ao circuito coletivo, está completamente olvidado. A memória nacional adormecida esqueceu o dia 24 de julho, oportunidade em que Solano cruzou o paralelo 70. Figura andante, pisou caminhos e semeou o amor ao folclore na tentativa de preservar nossas tradições através do teatro." (folheto publicado através do Ministério da Educação em 1978, quando Solano Trindade completaria 70 anos)

Edwaldo Cafezeiro: "Ao contrário de Cruz e Sousa, que sublimou no branco as atormentações de sua vida, Solano repousa tudo no seu canto e o seu canto na resistência e no brilho do ébano, do preto."



Canto dos Palmares



Eu canto aos Palmares

sem inveja de Virgílio, de Homero e de Camões

porque o meu canto é o grito de uma raça

em plena luta pela liberdade!

Há batidos fortes

de bombos e atabaques em pleno sol

Há gemidos nas palmeiras

soprados pelos ventos

Há gritos nas selvas

invadidas pelos fugitivos…

Eu canto aos Palmares

odiando opressores

de todos os povos

de todas as raças

de mão fechada contra todas as tiranias!

Fecham minha boca

mas deixam abertos os meus olhos

Maltratam meu corpo

Minha consciência se purifica

Eu fujo das mãos do maldito senhor!

Meu poema libertador

é cantado por todos, até pelo rio.

Meus irmãos que morreram

muitos filhos deixaram

e todos sabem plantar e manejar arcos

Muitas amadas morreram

mas muitas ficaram vivas,

dispostas a amar

seus ventres crescem e nascem novos seres.

O opressor convoca novas forças

vem de novo ao meu acampamento…

Nova luta.

As palmeiras ficam cheias de flechas,

os rios cheios de sangue,

matam meus irmãos, matam minhas amadas,

devastam os meus campos,

roubam as nossas reservas;

tudo isto para salvar a civilização e a fé…

Nosso sono é tranquilo

mas o opressor não dorme,

seu sadismo se multiplica,

o escravagismo é o seu sonho

os inconscientes entram para seu exército…

Nossas plantações estão floridas,

Nossas crianças brincam à luz da lua,

nossos homens batem tambores,

canções pacíficas,

e as mulheres dançam essa música…

O opressor se dirige aos nossos campos,

seus soldados cantam marchas de sangue.

O opressor prepara outra investida,

confabula com ricos e senhores,

e marcha mais forte,

para o meu acampamento!

Mas eu os faço correr…

Ainda sou poeta

meu poema levanta os meus irmãos.

Minhas amadas se preparam para a luta,

os tambores não são mais pacíficos,

até as palmeiras têm amor à liberdade…

Os civilizados têm armas e dinheiro,

mas eu os faço correr…

Meu poema é para os meus irmãos mortos.

Minhas amadas cantam comigo,

enquanto os homens vigiam a terra.

O tempo passa

sem número e calendário,

o opressor volta com outros inconscientes,

com armas e dinheiro,

mas eu os faço correr…

Meu poema é simples,

como a própria vida.

Nascem flores nas covas de meus mortos

e as mulheres se enfeitam com elas

e fazem perfume com sua essência…

Meus canaviais ficam bonitos,

meus irmãos fazem mel,

minhas amadas fazem doce,

e as crianças lambuzam os seus rostos

e seus vestidos feitos de tecidos de algodão

tirados dos algodoais que nós plantamos.

Não queremos o ouro porque temos a vida!

E o tempo passa, sem número e calendário…

O opressor quer o corpo liberto,

mente ao mundo

e parte para prender-me novamente…

- É preciso salvar a civilização,

Diz o sádico opressor…

Eu ainda sou poeta e canto nas selvas

a grandeza da civilização

a Liberdade!

Minhas amadas cantam comigo,

meus irmãos batem com as mãos,

acompanhando o ritmo da minha voz….

- É preciso salvar a fé,

Diz o tratante opressor…

Eu ainda sou poeta e canto nas matas

a grandeza da fé a Liberdade…

Minhas amadas cantam comigo,

meus irmãos batem com as mãos,

acompanhando o ritmo da minha voz….

Saravá! Saravá!

repete-se o canto do livramento,

já ninguém segura os meus braços…

Agora sou poeta,

meus irmãos vêm comigo,

eu trabalho, eu planto, eu construo

meus irmãos vêm ter comigo…

Minhas amadas me cercam,

sinto o cheiro do seu corpo,

e cantos místicos sublimizam meu espírito!

Minhas amadas dançam,

despertando o desejo em meus irmãos,

somos todos libertos, podemos amar!

Entre as palmeiras nascem

os frutos do amor dos meus irmãos,

nos alimentamos do fruto da terra,

nenhum homem explora outro homem…

E agora ouvimos um grito de guerra,

ao longe divisamos as tochas acesas,

é a civilização sanguinária que se aproxima.

Mas não mataram meu poema.

Mais forte que todas as forças é a Liberdade…

O opressor não pôde fechar minha boca,

nem maltratar meu corpo,

meu poema é cantado através dos séculos,

minha musa esclarece as consciências,

Zumbi foi redimido…



Fontes:
http://www.pco.org.br/ , http://www.pe-az.com.br/ , http://www.livrariacultura.com.br/
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