quarta-feira, 23 de agosto de 2017

"Ouçam as vozes das mulheres negras para transformar a sociedade", alerta Werneck

Reconhecer as vozes das mulheres negras como centro do diálogo sobre uma nova sociedade e um novo Estado é urgente

Jurema Werneck é médica, diretora da Anistia Internacional e ativista sobre temas relacionados à raça, ao gênero e à orientação sexual / Ana Branco/Divulgação



“Elas não estão dizendo alguma coisa que vá trazer seus filhos assassinados de volta, elas já os perderam e perderam para sempre. O que elas estão trazendo é uma proposta de como o Estado pode ser diferente, como a polícia pode ser diferente, como a sociedade pode ser diferente. Ou seja, é uma proposta extremamente generosa”. A explicação é da ativista antirracista Jurema Werneck, que na sua trajetória de vida e luta acumula décadas de experiência e respeitabilidade, como integrante da ONG Criola, médica, doutora em Comunicação e Cultura e atualmente diretora da Anistia Internacional no Brasil.
A voz de Jurema tem repetido, em ações, falas, textos e formulações eloquentes, aquilo que o racismo invisibiliza: são as vozes das mesmas mulheres negras que estão no centro da resistência ao racismo patriarcal – por serem justamente as mais intensamente expostas às suas consequências violentas e violadoras – que devem ser ouvidas pelo muito que têm a ensinar para a construção de uma sociedade mais justa e menos violenta.
Suas reflexões vão ao encontro das reivindicações da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, que neste 25 de julho realizou o ato “Mulheres Negras e Indígenas por nós, por todas nós, pelo Bem Viver”. A manifestação aconteceu no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e também Dia Nacional de Tereza de Benguela – uma data que une as mulheres negras internacionalmente.
Confira o especial "Negra Soy!", produzido pelo Brasil de Fato :: https://goo.gl/3sBEyf
Jurema Werneck esteve em São Paulo em 18 de julho, para uma participação no 11º Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A entrevista foi concedida à Agência Patrícia Galvão após sua participação na conferência internacional realizada por Tracey Meares, professora de Direito na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, e também mulher negra, que falou sobre o tema ‘Atuação policial, legitimidade e confiança nas polícias‘.
Tracey Meares destacou em sua fala como a atuação policial impacta não só na relação da sociedade com o Estado, mas possui também um poder ‘educativo’ que impacta na relação dos membros da sociedade entre si. Ou seja, uma polícia violenta alimenta relações sociais violentas. Ao interagir com a conferencista, Jurema Werneck trouxe quatro casos de jovens negros assassinados por agentes de forças policiais, que são acompanhados pela Anistia Internacional: Maicon de Souza Silva, 2 anos, morto em 1996 durante uma operação policial na favela de Acari, Rio de Janeiro; Gary Hopkins, morto aos 19 anos em 1999 pela polícia de Maryland, nos Estados Unidos; Fabrício dos Santos, filho de Gláucia dos Santos, assassinado aos 17 anos por autoridades policiais em um posto de gasolina em Guadalupe (Rio de Janeiro) na virada de 2013 para 2014; e Nakiea Jackson, morto em 2014 pela polícia de Kingston, capital da Jamaica.
“São quatro histórias de crianças e jovens negros mortos pela polícia, de familiares que se tornaram ativistas pelo fim da violência, pela punição dos assassinos e pela transformação da polícia. Nossa região, a americana, é extremamente violenta”, pontuou Jurema Werneck, ressaltando que as políticas públicas da região não atuam da mesma forma em relação à proteção da vida de brancos e negros. Nesse cenário, Jurema destaca que é preciso dar centralidade para a voz das mulheres negras, que muito têm a dizer para a construção de uma sociedade menos racista e violenta em um continente marcado pelo colonialismo, a escravidão e o seu nefasto legado: o racismo patriarcal.
Confira a entrevista:
Você disse durante a conferência que é preciso ouvir as vozes das mulheres negras, que elas têm muito a ensinar para uma polícia e um Estado mais humanizado. O que essas vozes estão repetindo que a sociedade não está ouvindo?
Primeiro, essas vozes estão falando bem alto que a polícia está matando meninos e meninas negros e negras nas favelas, nas periferias, em todos os lugares. Elas estão dizendo também que há um fenômeno escondido, ou pouco tratado pelo Estado, que é o racismo, o racismo patriarcal, que não apenas elimina os jovens e as jovens, mas também invisibiliza ou não ouve o que precisa ouvir das vozes das mulheres negras. Porque elas não estão dizendo alguma coisa que vá trazer seus filhos de volta, elas já os perderam e perderam para sempre. O que elas estão trazendo é uma proposta de como o Estado pode ser diferente, como a polícia pode ser diferente, como a sociedade pode ser diferente.
Ou seja, é uma proposta extremamente generosa, porque, como eu disse, o que elas já perderam não vão recuperar nunca mais, mas elas mostram que existe um caminho para além da vingança, tem um caminho que significa justiça, e fazer parte da justiça é dar centralidade a essas vozes, ouvir essas mulheres que são mulheres negras, que são em sua maioria mulheres de favela e da periferia, que têm uma proposta de um mundo diferente e que precisam ser ouvidas.
E qual é o papel das instituições no enfrentamento ao seu racismo institucional, que é quebrar de fato essa invisibilidade e se comprometer com essa pauta para além do discurso?
É fazer. Enfrentar o racismo institucional só se faz enfrentando. Primeiro, tem que reconhecer que o racismo está lá – em uma sociedade racista, um país racista, um continente racista, o racismo está lá. Então, é preciso enfrentar, e de diferentes formas. Reconhecer implica dizer que as autoridades, ou melhor, que a opinião institucional tem que ser abertamente e explicitamente colocada em favor do enfrentamento ao racismo. É preciso também criar mecanismos internos: diferentes setores, políticas e ações, diferentes formas de dialogar com a sociedade, informar e prestar contas do que está fazendo.
E, no caso das polícias, é preciso de fato interromper imediatamente esse confronto entre Estado e comunidade negra, em especial a população jovem negra. E, por fim, é preciso se juntar à luta que parte da sociedade já está fazendo. Os movimentos negros e os movimentos de mulheres negras, a população indígena, a população de favela já estão lutando. É preciso se juntar e não se opor a essas lutas. Tem que trazer essa inteligência, tem que trazer essas metodologias para dentro, para construir políticas que tenham mais a cara da população. Ou seja, tem que fazer muita coisa, mas é isso: tem que fazer.
E é importante respeitar esse protagonismo, certo?
Sim, com a mulher negra no centro, porque é a mulher negra que está fazendo esse movimento. Isso vale para o Brasil, a Jamaica, os Estados Unidos e vários países do continente: as mulheres negras estão fazendo. Então, é central, é fundamental e é urgente trazê-las para o diálogo e para informar as ações que as instituições têm que fazer.
Por fim, você comentou durante a conferência sobre a taxa de mortalidade da população negra e no Mapa da Violência 2015 vimos que também aumentou a morte violenta de mulheres negras – em 54%, enquanto a de brancas caiu 9,8% – mesmo com a Lei Maria da Penha em vigor no Brasil, que é considerada uma das mais avançadas do mundo. Esses números são reflexo do racismo estrutural e institucional no país?
Sim. O racismo está presente inclusive na Lei Maria da Penha, quando exclui o enfrentamento ao racismo dos seus mecanismos de proteção à vida das mulheres,  que, assim, está deixando de fora esse contingente de mulheres que segue sendo extremamente vulnerável, que segue sendo assassinado apesar da Lei, apesar de uma política pública que foi construída com todas as mulheres. A Lei Maria da Penha foi construída no debate com todas as mulheres, mas na reta final a política pública acabou não incorporando aquelas que estão mais expostas, não incorporando o enfrentamento ao racismo institucional. O processo de criação e de implementação da Lei Maria da Penha tem muito a ensinar, mas a primeira lição é que é preciso enfrentar o racismo.
Edição: Agência Patrícia Galvão
                      

sábado, 5 de agosto de 2017

SALVE AS MULHERES NEGRAS!




Por: Ana Paula Maravalho

O tema da Audiência Pública era Violência contra as Mulheres Negras. Fui convidada pela Rede de Mulheres Negras de Pernambuco a fazer uma palestra. Convite aceito, fui pensar como intitularia minha fala. Não quero começar uma frase falando justamente daquilo que nos faz sofrer. Mas também não queria alisar, tornar leve um assunto que é, por natureza própria, pesado. Escolhi, depois de algumas tentativas “Mulheres Negras: Basta de Violência”. 
Antes de assumir o microfone, como faço sempre que me é possível, concentrei-me algum tempo, pedindo que minha palavra – o instrumento que me foi dado nesta vida – fosse guiada para chegar onde for necessário. 
Iniciada a audiência com os versos vivos e cortantes de duas jovens poetisas negras, aos poucos fomos sendo inseridas numa miríade de estatísticas afiadas feito faca amolada, que mostram o quanto a violência em todos os seus aspectos atinge de forma desigual as mulheres negras. Mas, muito mais que estes dados, foram os depoimentos reais das mulheres presentes que nos retalharam a alma. Por vários momentos, fomos às lágrimas. Em outros, experimentamos na carne o refrão da música de Gil: “a felicidade do negro é uma felicidade guerreira”. Sim, rimos, e rimos muito também. Reações próprias da humanidade que compartilhamos. 
Foi então que nas falas das mulheres presentes eles chegaram de mansinho, postando-se à nossa frente e em nossa retaguarda. Invisíveis, mas presentes. Intocáveis, mas reais. Chegaram sem ter sido oficialmente convidados pela direção do evento. Vieram sem convite em papel timbrado, mas vieram nos acompanhando, mostrando que nessa luta não estamos nem ficaremos jamais sós. À medida em que eram nomeados, lembrados, cantados, assumiam seus lugares na assembleia, na mesa, na tribuna. 
Primeiro, como não podia deixar de ser, chegou Exu, na palavra da companheira que, ao anunciar uma vigília que será realizada, enfatizou que a mesma vai acontecer numa segunda feira - dia especialmente escolhido pelas organizadoras em homenagem ao orixá. Depois chegou Oxum, na fala de uma policial militar fardada que lembrou a fertilidade ancestral presente nas assembleias de mulheres negras. 
A jovem liderança de uma ocupação, vestida de vermelho, nos contou sobre a ação recente das mulheres, que receberam policiais que foram desalojá-las “riscando o facão no chão”. “Eparrei!”, murmurei, respeitosa, ao sentir a encantada se mostrar logo ali, bem pertinho... Num depoimento a respeito de uma violência sofrida, outra jovem evocou a Justiça representada por Xangô. E a sabedoria de Nanã chegou com o recado final na potente voz de Ediclea Santos Silva: Saluba, Vovó! A energia da sociedade das mulheres negras se corporificou e se expandiu pelo auditório, encheu o ar e foi aspirado por todas nós, essência curativa e instigadora. 
Embalada pelo Poder desta assembleia de visíveis e invisíveis, sigo refletindo que, embora a violência não seja exatamente uma novidade para nós, mulheres negras, atravessamos um momento crucial em que, mais do que tudo, precisamos ter ESTRATÉGIA. Passou a fase de constatar, de denunciar, de exigir. O momento agora é construído no front de uma batalha que nos pede mexer com as peças certas. Vamos nos reagrupar. Nos realinhar, nos refazer, recuperar a nossa energia vital espalhada em tantos terrenos que não são nossos. É hora de lamber as feridas, de nos curarmos e olharmos nos olhos umas das outras. Para definir os próximos passos e seguir marchando. 
Um bom fechamento para o Julho das Pretas, esta entrada pelo mês de agosto. Soou o apito; a batalha continua. Boa continuidade para nós!

“Aprendi com a Matamba a jogar capoira e dançar afoxé
Ser original, tocar berimbau e viver Candomblé
Meu povo não nasceu para a senzala
Sou filho do Alafin de Oyó, Xangô
A Liberdade é meu Axé de Fala
Kawo Kabessilè Kawo!

terça-feira, 11 de julho de 2017

25 de Julho

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Quando os Sonhos Recomeçam!



Por: Rosangela Nascimento

Um perfume, guardado na memória e a alegria que esta lembrança conduz.  Adiante, pois este sonho ainda tá começando. Aliás, todo mundo gosta de ouvir a parte do conto que diz que foram felizes para sempre. Para sempre?  É para sempre! Quando estamos amando não temos noção do tempo, seguimos o coração e vamos sendo guiadas como nuvens empurradas pelo vento.
E esse vento que anuncia boas notícias e um tempo novo, ou um momento de esperança. E nos agarramos de tal forma neste sentimento que tudo se transforma como mágica.
Pois viver é simples, somos nós que complicamos. Ao invés de seguir adiante e deixar para trás tudo que é ruim e incomoda, nos apegamos de uma maneira que captamos forças negativas. Aprender a fazer de cada dia um novo dia é desafio, uma nova lição.
Portanto, seguindo o fluxo da aprendizagem, o que fez mal ontem, hoje não fará mais. O hoje é o presente, o novo, o inesperado que deverá ser maravilhoso. Pensamentos positivos e elevados de sabedoria. Rumo à conquista da felicidade, autoestima elevada é o segredo, o código secreto para o feliz para sempre.
Amor é uma porção de carinho, ternura, bondade, paciência, uma pitada de empatia, um toque leve de aconchego, e o ingrediente misterioso que faz tudo dar certo, respeito. Respeito é o nosso mistério. Quanto mais respeito colocamos, mais amor recebemos e adquirimos em nosso corpo e coração. Ficamos leves e viciadas, querendo sempre mais. Agora, não podemos esquecer que temos que guardar para o utilizarmos o tempo todo, sem moderação.
Teremos que produzir em longa escala, guardar no lugar iluminado e temperatura ambiente, conservar no recipiente transparente que todos possam enxergar.
Assim sendo, tudo ao nosso entorno fica mais belo e mais forte, teremos que usar sem moderação. Dizer bom dia, boa tarde, abraçar e beijar as pessoas que se encontram no ambiente familiar, e no nosso trabalho, na amiga chamada vida.
Somos mulheres negras, nos amando e de bem com a vida. Nada tem que ser rígido o tempo todo. Estamos dando uma trégua, uma pausa para aqueles e aquelas que sempre nos dizem “seja forte”. Ser empoderada é também saber amar e dar amor, espalhar o que há de melhor dentro de nós. Todo gesto carinhoso, ato de amor que damos para o nosso povo negro é seguir apagando o ontem, o desagradável, desconfortável e inaceitável racismo.
Temos o direito de amar e sermos amadas, vamos guardar e cultivar o que nos faz bem, os cafunés e dengos repassados pelas nossas ancestrais. A nossa memória registrou cada aroma, cada sabor que a ternura posta na porção do bem querer, do amor e do nosso feliz para sempre.
O presente é o novo, a nossa oportunidade de transformar, de fazer com que o inesperado aconteça para que o amanhã seja tão agradável como o hoje. Tomando e retribuindo todo amor que temos e recebemos é a nossa ceia, o nosso momento de socializar.
Seguiremos leve, acolhendo cada gesto carinhoso e modificando os pensamentos negativos em positivos, olhar nos olhos e reconhecer a semelhança no olhar de minhas companheiras e irmãs e irmãos negros. Faz tempo que começamos a reescrever a nossa história, então faremos sempre o melhor. Os sonhos têm que ser reelaborados e revisitados todos os dias, pois todo dia é um recomeço!
Os sonhos são nossos objetivos, sejam gerais ou específicos. Temos que subir nas nuvens e deixarmos ser conduzidas e guiadas pela nossa imaginação. Desta forma o amanhã terá sempre uma ponte, um arco-íris de Oxumaré.

sábado, 13 de maio de 2017

Iyámi-Ajé

 Minha Mãe Feiticeira 


“Fomos educadas para respeitar mais ao medo do que a nossa necessidade de linguagem e definição, mas se esperamos em silêncio que chegue a coragem, o peso do silêncio vai nos afogar.”   
Audre Lorde.




Por: Rosangela Nascimento

Peço a sua benção mãe natureza, que permite que tudo se transforme e ou modifique-se. Para continuar minha jornada, embora em alguns momentos eu titubeie, mas logo recupero o fôlego e sigo adiante deixando minha imaginação fluir e o coração com a porta aberta para captar os bons ventos.

Foi na Grécia antiga no começo da primavera que se iniciou o ato de celebrar e realizar oferta à mitológica Deusa Rhea, a mãe dos Deuses. Tornando este um momento especial para louvar e agradar a mãe, a grandiosa Deusa.

E como somos representações dos Deuses, ao longo da história os hábitos e costumes foram repassados e aprendidos.  Chegando à contemporaneidade o “Dia das Mães”. 
Na religião de matriz africana a Deusa Oxum, assume caracteres parecidos a Deusa Rhea, ambas são símbolos da fertilidade.

Com a benção da natureza, as águas doces dos rios são comandadas pela Deusa do amor, que tem poder de alta patente para uma mulher por controlar a fecundidade, ela é uma Iyámi-Ajé (Minha mãe feiticeira).

Partindo desta premissa, seguindo um pouco da mitologia, e adentrando o mundo real, que a vida é árdua e dura para algumas mulheres. De seus ventres, da grande cabaça, surge uma força desconhecida e gigantesca que vem como um raio de sol batendo no horizonte. Desaparece o véu do silêncio. Sendo este um fenômeno que poucos irão perceber. Pois há, outro fenômeno raro chamado sensibilidade.

A falta deste fenômeno lava de sangue as ruas e alma de muitas mães que choram por que perderam seus filhos jovens negros. E tudo se resumi em uma única palavra, que poderia mudar a realidade. Aliás, não podemos medir a dor alheia, é imensurável!

Dito isto, sabendo desta afirmação podemos acolher em nossos braços e corações estas mães, mulheres que perderam seus filhos que abruptamente foram retirados do seu convívio natural. Um berro uníssono é o que as mães destes jovens negros estão emitindo.
Porquanto, já que existi o “Dia das Mães”, e o ato de presentear as Deusas, vamos ofertar o que há de melhor dentro de nós. Amor, que pode ser manifestado de diversos gestos e atos simbólicos. Humanizar cada expressão direcionada para estas mulheres é fundamental. São os encadeamentos de respeito que fazem a diferença.

E a minha mãe feiticeira, que fez brotar de seu útero quatro titãs, quatro erês. Fazendo uso da magia para com salário mínimo sustentar os filhos e arcar com a despesa da casa. Ora foi silenciada, emudecida por uma sociedade excludente que se revela a cada dia que corre as mudanças do mundo, em cada raio de sol que bate no horizonte.
Sobreviver na nossa sociedade, é aprender a fazer muita magia, é utilizar de forças que habitam o universo. É fazendo um feitiço para empoderar os filhos/as para combater o preconceito e o racismo. E uma porção de encantamento para acolher no colo e enxugar as lágrimas.      

Sou privilegiada de ter comigo minha mãe feiticeira. Que se revela de diversas formas, que usa da criatividade para sobressair. Para fazer valer seu lugar no firmamento, sem silêncios ou boicotes. Abrindo os caminhos para um futuro melhor, com mais igualdade e oportunidades. Foram muitas lágrimas para formar um rio e fazer com que o axé chegue até nós, nossas ancestrais fizeram muitas mandingas.

Em virtude do foi mencionado, na perspectiva de romper os silêncios de respeito à vida ofertando e humanizando cada ato direcionado para as Deusas, as Mães, Iyámi-Ájé. Que seja fértil os nossos corações para brotar algo bom, maravilhoso que ilumine os caminhos e inunde corações com luz negra por onde passar de forma flamejante.  

Com carinho para Iyámi-Ájé.
Maria José do Nascimento

________
[1] Mãe, Companheira, Mulher Negra, Pernambucana, Nordestina. Blogueira, Graduada em Letras - FACHO (Faculdade de Ciências Humanas de Olinda), Arte Educadora Sócio - Ambiental. Educadora com formação em Direitos Humanos. Como escritora convidada participou - Cadernos Negros volume nº 38 dedicado aos contos (Quilombhoje).


sexta-feira, 24 de março de 2017

Tempestade de Amor



                                                                                                                                                            Por: Rosangela Nascimento


Vou levando alegria
Por onde passar
Sou a força da natureza
Tenho o brilho de Oyá

Vendaval que fortalece
As mulheres guerreiras
As que precisam de justiça
As afoitas e arengueiras

Sou beleza e grandeza
Não me diga o que fazer
Nem para onde vou
Sou como um búfalo
Mas necessito transformar para viver

Tempestade de carinho
Por você, filha de Oyá
Raios e trovões
Para iluminar seu caminho
Chuva de pétalas de rosas
Florescendo no seu ninho

Na busca da igualdade
Do direito de voar
Logo somos fênix
O medo vem, mas com ele
Também a liberdade

E no silêncio
Você é meu alento
Vento que aquece o meu coração
Faz levitar a imaginação
A força dos elementos
E toda constelação

És, a natureza
A beleza da leveza
A sensibilidade do teu olhar peculiar
Oyá
Rainha dos ventos
Deusa do descontento
Onde o vento traz para dentro de mim
Tudo que é belo e maravilhoso
Que neste mundo há!

segunda-feira, 6 de março de 2017

Continuo Andando


Dança das Mulheres 

Por: Rosangela Nascimento

Tentou apagar minha trajetória
Calúnias, difamação
Atacou minha moral, minha honra
Mas, eu continuo andando, vou seguindo em frente

Quando tentei participar
Boicotou-me?
Justificava que era pelo bem
E me pergunto, de quem?
Excluída e deprimida continuei andando
Vou seguindo

Recebo luz e vou iluminando por onde passo
Minha luz é igual ao sorriso da Oxum
Que lembra e representa força
Toda esperança necessária
Continuo andando

Queria me destruir?
Humilhar e me deixar na pior?
Fragilizada e lágrimas pelo chão,
Tolhida, reprimida e sem amigos?
Minha confiança incomodava?
Óbvio que sim!

Porque mesmo entre os destroços que você me colocou
Eu continuo andando e transformando o mundo enlamaçado 
Que você me jogou
Continuo andando!
Eu continuo!
Ressurgindo!